Plataforma de Conteúdo Facens

Entrevista João Paulo Marum – ex-aluno Facens

Por: - aproximadamente 2 meses

João Paulo Marum, natural de Sorocaba, é hoje engenheiro da Computação e ex-aluno da Facens que vem mantendo sempre no alto o nome da instituição. Proferiu recentemente uma palestra para profissionais da NASA – Agência Espacial Norte Americana, isso é fruto de um grande esforço e dedicação aos estudos e ao trabalho.

Atualmente João Paulo se divide entre a docência na Universidade do Mississipi (EUA) e trabalhos de pesquisa de ponta, aliando conceitos como Realidade Virtual e Inteligência Artificial. JP, como é conhecido, fará uma apresentação do seu trabalho publicado pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers, em Huntsville, no Alabama, no Von Braun Center e na NASA Space Rocket Center, não só se igualando, mas ajudando a elevar o estado da arte desses conhecimentos no país do Tio Sam.

 

1)      João Paulo, você se formou em 2012 no curso de Engenharia de Computação da Facens. O que o inspirou a escolher este curso?

Durante todo o Ensino Médio eu fiz cursos técnicos ou de aperfeiçoamento na área de informática. Porque já era uma área da qual eu gostava e pensava em trabalhar. Mas o evento que fez aproximar da Facens realmente foi uma Feira de Profissões, que era promovida pelo Colégio Objetivo na época. Eu fui visitar a Feira e conversei com alguns professores e foram justamente esses contatos que me abriram a perspectiva do curso.

 

2)      Era o que você imaginava antes da faculdade ou alguma coisa no curso o surpreendeu?

Sim, com certeza, em diferentes aspectos. Eu diria que o mais desafiador foi o primeiro ano do curso. Ele é extremamente diferente dos outros porque o aluno precisa se colocar em contato com uma maneira muito diferente de pensar. E nada havia me preparado para isso no Ensino Médio. Eu diria que matérias como Lógica e Programação estão entre as mais importantes, porque são as que “separam o joio do trigo” e mudam nosso raciocínio. A gente não tem ideia, por exemplo, que vai ter que simplificar muito o modo de utilizar nosso conhecimento. O computador é visto como algo sofisticado, mas na verdade ele só vai fazer aquilo que nós mandarmos ele fazer. E tem uma mudança de paradigma importante: como fazê-lo multiplicar e dividir se ele só sabe somar e subtrair?

 

3)      O que te ajudou a superar os obstáculos ou dificuldades do curso?

A minha graduação ainda era no módulo antigo, com muita base de Elétrica e Eletrônica, e isso ajudou muito no desenvolvimento do curso. Além disso, uma das coisas que mais me motivaram a continuar foram as oportunidades que os professores apresentavam aos alunos, nos estimulando a pensar fora da caixinha e adquirir novos conhecimentos. Esses projetos ajudaram a afinar meus conhecimentos, pois havia muitos projetos fora da sala de aula. Lógico que nem todos os alunos aproveitam essas oportunidades, mas aqueles que fizeram isso puderam aproveitar muito. Sobre as dificuldades, acho que posso dizer que o último ano é realmente o mais pesado, quando tomamos mais contato com a realidade de mercado e precisamos provar nossas habilidades. Mas eu preciso destacar alguns apoios que foram essenciais para a minha trajetória profissional futuramente. Entre eles o da professora Andréa Leles, que ensinou uma matéria crucial, chamada Engenharia de Software. Havia muita teoria, mas a atuação no Laboratório foi a base do meu primeiro contato com o que seria o desenvolvimento de um projeto de sistema desde o início. E, graças a ele, pude realizar o meu TCC e foi também o que me deu base para o trabalho que eu realizo hoje. Fico feliz pois consegui encontrar uma coisa de que gosto muito de fazer.

 

4)      E como você atua profissionalmente hoje?

Eu trabalho em Oxford, no Mississipi, na Universidade de Mississipi, que é uma instituição público-privada, onde sou professor, além de candidato a Ph.D. Aqui sou pesquisador associado e professor. São pesquisas feitas em parceria com outros professores, de outras nacionalidades, e utilizamos, por exemplo, muita Inteligência Artificial em nossas pesquisas. Eu trabalho com outros professores e também com pessoal de outras universidades. Estou aqui há cinco anos.

 

5)      Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar fora do país?

A oportunidade de vir para Oxford surgiu quando eu trabalhava na Facens, como engenheiro. E devo isso muito à professora Andréa Vieira Braga. Foi ela que me incentivou bastante a buscar meu mestrado fora do país e que me colocou em contato com  o pessoal de Harvard, que estava buscando esses pesquisadores em várias instituições do mundo todo. Mas é preciso dizer que ser brasileiro em uma universidade norte-americana não é assim tão fácil. Antes mesmo de atuar precisei passar por vários processos seletivos, até conseguir entrar na Universidade. Ao mesmo tempo, pude agregar outras características, como o meu gosto por dar aulas, algo que vem desde a graduação, quando eu tive a chance de dar aulas, tive algumas experiências assim.

 

 

6)      Você fez uma palestra para o pessoal da NASA. Pode comentar a respeito? Como surgiu esta oportunidade?

Aqui nos Estados Unidos, quando a gente realiza um trabalho de pesquisa, um dos requerimentos é apresentar a sua pesquisa para outros pesquisadores, geralmente em eventos como congressos e conferências.  Como o trabalho que eu e a equipe estamos desenvolvendo tem muito a ver com avanços que interessam ao pessoal da área de pesquisa aeroespacial, eu recebi este convite. Eles não só aceitaram publicar nossos achados, como quiseram me levar para dar esta palestra lá, em uma Conferência muito importante, uma vez que envolve outras áreas também e não apenas o desenvolvimento aeroespacial norte-americano. É um tema que está muito voltado à Realidade Virtual. Há hoje um grande interesse nessa área porque é mais acessível fazer simulações técnicas do que gastar com experimentos diretamente no espaço. Nós simulamos, por exemplo, o que acontece com determinado material quando ele entra em contato com a atmosfera terrestre, o quanto ele é resistente, e ainda como funciona na gravidade zero. O tipo de pesquisa que estamos conduzindo leva os resultados o mais próximo possível da realidade, além de eliminarmos algumas inconsistências que são comuns de acontecerem nessas simulações. O objetivo com isso é proporcionar a criação de um novo padrão, mais assertivo, nessas simulações, que poderão também ser adotadas pela NASA, além de empresas de outros setores, utilizando as soluções criadas.

 

7)      Com certeza é um trabalho muito relevante, que contribui para elevar o nível das pesquisas mesmo de grandes instituições, como a NASA. Mas conte um pouco como se deu o início dessa trajetória profissional.

Foi na Facens, onde eu comecei a trabalhar ao lado do professor Glauco. Uma parte desse trabalho era ensinar os adolescentes a linguagem de programação. Realizei esse trabalho ao longo de dois anos, logo após me formar. Foi quando a professora Andréa me chamou para trabalhar em um Núcleo da Faculdade, no grupo de desenvolvimento de software. Desenvolvíamos vários sistemas, como o que dava apoio à realização das matrículas, à geração de notas fiscais, entre outros. Eu permaneci nesse grupo por um ano e meio. Foi quando iniciei meu mestrado na UFSCar. Nesse momento a professora Andréa também passou a me incentivar muito a buscar uma vaga de mestrado nos Estados Unidos. Era uma época em que os recursos governamentais para os estudos fora do país começaram a cair, mas eu não desisti e ainda pude contar com esse importante apoio de dentro da faculdade onde eu havia me formado.

8)      E quais foram os desafios?

A adaptação em um país estrangeiro nunca é fácil. A sorte é que estamos, eu e minha esposa, em uma cidade universitária. Isso torna mais comum o contato com estrangeiros e facilita um pouco nossa adaptação. Ainda assim, é preciso lidar com muitas barreiras, inclusive da língua. Para mim o maior choque foi no primeiro semestre. Tudo é diferente, inclusive a forma como as aulas são dadas. Tenho a impressão que aqui se espera mais do aluno. A carga de matérias e teoria nas aulas é muito grande. E há professores de várias nacionalidades, cada um com seu diferente sotaque, tem professor indiano, chinês, de vários outros países.

 

9)      Se pudesse dar um conselho aos alunos da Facens hoje, o que diria?

Acabamos conversando com outros ex-companheiros de graduação e também observamos o mercado. Existe certa tendência hoje de desvalorizar o diploma. Mas, com minha experiência, diria que ele continua importante sim. Porque não é só pelo título em si, mas pela vivência que o estudo acadêmico proporciona, inclusive a experiência de vida e o amadurecimento. É uma base que oferece a oportunidade de uma formação sólida, que em algum momento será importante. Mesmo que no momento a pessoa não consiga visualizar muito bem para que está aprendendo aquilo e onde vai aplicar. Pode estar certo de que, no futuro, será muito útil em algum momento de sua vida profissional. Ele pode aprender várias coisas sozinhos, em tutoriais na internet, mas não é a mesma coisa. A universidade é a base. Também diria que é importante dar valor à maneira como se dá o ensino superior no Brasil. E, quando tiver que fazer uma escolha, por uma especialização, um mestrado ou doutorado, que não seja por fazer, mas com convicção e com propósito. Pois é este propósito que vai fazê-lo perseverar e resistir aos desafios que certamente aparecerão.  Aqui, pude contar muito com o apoio da família, da minha esposa. Sem ela não sei se teria conseguido. Mas ter um propósito naquilo que faz eu diria que é primordial.

Comentários